RECONSTRUINDO O PASSADO

 


O passado, quando dolorido, quer ser esquecido. Dor, lembrança que se quer fazer ausente, como anestesiado a uma vida que foi, e que não mais se sente. Assim são os traumas, que se quer sepultar, em lapides que os possa ocultar.

Mas ao olhar para trás, aquele, que és por ser parte de cada coisa que foi, sente a ausência. Das cicatrizes, ao olhar no espelho, a memória não existe, sepultada no outrora não lembrado. A parte mais forte, da luta da qual sobreviveu, aparece oculta, e tudo o que não se revela é aquilo que te faz fortaleza, e que te fez ser o que é, juntando a dor a todos os temperos de gozos e prazer de teu ser.


Na dor oculta que te distingue de todos que a dor não puderam sentir, forjou-se teu ser, não que fosse necessária a dor, mas existindo, de fez provar-se como forte, te fez entender cada momento como passagem, te fez crescer sabendo poder resistir, pois viver não é nada que não seja resistir, enquanto o presente é dado pelo futuro inescapável que ainda não chegou.


Volta, desenterra teu ser oculto, sepultado na dor do outrora que já passou.


Caminha, retorna a ponte que construíste no abismo do mais profundo vale por onde andou, e que tentou esquecer. Destrua a ponte e ande novamente pelo vale, e entenda tudo que aquela caminhada de dor lhe permitiu hoje ser.


Força, não permita que na linha reta de teu passado, linha única que te trouxe aqui, haja fissuras, cubra todo trauma, retome cada lição de dor, não as separando das lições de gozo e amor, pois é tudo você.


Pois parte da ponte que te separa de ti, parte da lápide que te faz esquecer, parte de cada vestígio de teu passado é também você, é também totalidade, é parte de reconhecer-se.


Retira, pois, o véu que te oculta de ti ao olhares no espelho do passado, retira a maquiagem da cicatriz que te transformou a face, mostra as marcas de tua própria luta a você mesmo, e orgulhe-se de ter sobrevivido a cada catástrofe, se esconder-se na romântica ideia da perfeição inexistente.


É teu caminho o teu tesouro mais precioso, não que seja tu, mas é parte de tantas e infinitas possibilidades que couberam apenas a ti, e que tornam a tua história tão única, tão própria, tão tua que te fazem como é. 


Retorne, reconheça, recolha os tesouros perdidos e deixados sepultados. Aprenda, relembre, entenda, é só assim compreenderá mais do que qualquer pessoa quem és, e o que te trouxe até aqui.


Desobstrua cada via rumo ao teu nascimento, deixe o caminho de teu passado limpo, como uma via de acesso a ti mesmo, desde a tua própria origem, e assim tornará o passado e presente um só, fluxo único, abrindo-te a todo o porvir do enquanto tu existir.


E assim se abra ao futuro, se entregue a projeção que é, conecte os dias dados pelo futuro inevitável aqueles já vividos, e como abrindo os braços - o direito, exato, mirando passado; o esquerdo, projeto aberto, mirando o futuro -, façam tua cabeça se postar presente, unindo os pontos mais extremos de teu ser, ente primordial de existir.


Concilia-se então o ter sido, ao poder ser, no que é, homenagem última aquela que te presenteou em cada dia, e que ainda te presenteia com mais um dia, mais uma possibilidade, antes que chegue o dia de pagar a derradeira dívida de cada presente dado ao teu ser…


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